Reestruturando Brumadinho após a tragédia – entrevista exclusiva com o prefeito

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Prefeito de Brumadinho Avimar Barcelos, o "Neném da Asa". Foto: Juliana Bento.

Na quarta entrevista da série com os prefeitos onde a Folha Vale do Paraopeba circula, o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo Barcelos, o “Neném da Asa”, fala sobre as dificuldades enfrentadas pela cidade após o rompimento da barragem da Vale, o pacote de obras no valor de R$ 30 milhões que será executado a partir do segundo semestre e as dificuldades enfrentadas pelo atraso nos repasses por parte do governo estadual.

FVP: Brumadinho vivenciou uma tragédia em 25 de janeiro, com o rompimento da barragem da Vale na mina Córrego do Feijão. Qual foi sua reação e quais foram as primeiras medidas tomadas pela prefeitura, logo após o desastre?

Avimar: Eu não estava na cidade quando aconteceu. Consegui chegar em Brumadinho no sábado de manhã (o rompimento foi na sexta, às 12h25). Lembrei de Mariana e temi que fosse o mesmo cenário (em 2015, a barragem da Samarco se rompeu deixando 19 mortos e graves danos ambientais). Conheço a região e quando vi percebi a força da lama, que arrancou tudo como um tsunami: árvores com troncos grossos, asfalto, o pontilhão… Aos poucos fomos sabendo quem era vítima da tragédia. Uma delas, a Sirlei, era minha amiga (Sirlei de Brito Ribeiro, advogada e então secretária de Desenvolvimento Social de Brumadinho). O primeiro ato que tomamos foi destinar nosso pessoal para procurar os familiares de possíveis vítimas e dar a eles a atenção e o suporte que precisassem. Cerca de 90% das vítimas eram de Brumadinho e foi um luto em toda a cidade.

FVP: Quais foram os principais impactos econômicos sofridos pela cidade?

Avimar: Destruiu o comércio. Na faculdade havia mais de 60 alunos para matricular e ninguém veio. Muitos temiam que outra barragem pudesse estourar e matar pessoas. O Inhotim, que tinha uma média de três mil pessoas por sábado, e três a quatro mil no domingo, tem recebido 250 no sábado e 300 no domingo. A situação econômica do município piorou muito. O que tem nos ajudando no momento é o benefício que a Vale tem dado para quem mora até 1km das margens do Rio Paraopeba. Com isso, as pessoas estão consumindo e reaquecendo a economia. Mas esse valor é só até o final do ano. E depois? A questão econômica ainda é muito delicada. As pessoas falam que a Vale encheu Brumadinho de dinheiro, mas isso não é verdade. A única coisa que a mineradora deu são os impostos que ela já tem que pagar todo mês. A partir do momento que ela para a operação, não tem obrigação de pagar mais. Conseguimos a garantia de que ela pague esses impostos até dezembro do ano que vem, na ordem de R$ 4 milhões por mês, mesmo se ela não estiver funcionando. Mas é algo que ela já pagava antes da tragédia.

FVP: E como está a situação em relação a tragédia hoje? Quais são as principais necessidades da cidade?
Avimar: O que mais machuca é ter essas 22 pessoas embaixo da lama ainda. Porque quem enterrou seus entes queridos, encerrou o ciclo. Mas os desaparecidos comovem toda a cidade. Continuamos dando apoio para esses familiares.

FVP: O município tem recebido apoios dos governos Federal e estadual?
Avimar: Do Governo Federal estamos tendo o apoio de dois ministros: Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, e Osmar Terra, da Cidadania. Eles estiveram na cidade em junho e confirmaram o trem de passageiros de BH a Brumadinho e, também, lançaram o programa Aliança por Brumadinho, que vai reunir empresas para ajudar a reestruturar o município após a tragédia. Já em Minas, o governador, Romeu Zema, disse em fevereiro, logo após o rompimento, que iria pagar os R$ 26 milhões em repasses atrasados a Brumadinho por ser um caso excepcional. Porém, isso não ocorreu até hoje. Outra questão: a Vale pagou R$ 108 milhões em multas ao Estado e Zema disse que quando o dinheiro caísse ele me pagaria. Soube por fontes internas que esse valor já foi pago. Porém, o governador não nos passou essa quantia. Ele não tem palavra.

FVP: Quais são suas expectativas quanto ao retorno das atividades da Vale?
Avimar: Acredito que a mina de Córrego do Feijão não volta. Mas a mina de Jangada já está autorizada. Se a Vale não retomar as operações, irá parar de pagar os impostos e Brumadinho vai sofrer impactos econômicos graves. O gasto da prefeitura, com serviços públicos, folha de pagamento, entre outros, é de R$ 12 milhões e só a Vale paga R$ 4 milhões em impostos. É um valor que pesa muito no orçamento e, sem ele, seria muito complicado. Até dezembro ela está obrigada a pagar esses impostos. Mas se não voltar a operar e parar de pagar, como vai ser? A cidade ficará com um aperto financeiro grande e com muitos desempregados. O que sempre quisemos para Brumadinho é trazer empresas para o município, para diversificar a fonte de emprego e renda, e não depender tanto de mineração como dependemos hoje. Claro que a Vale é uma criminosa. O que ela cometeu foi um crime. Mas precisamos dela operando, porém, minerando de forma responsável, à seco, sem barragens. No dia 5 de junho, ela informou na imprensa que iria investir R$ 1,8 bilhão em Brumadinho. No entanto, ainda não fomos comunicados oficialmente. Se for verdade vai ser ótimo para a cidade.

FVP: Falando dos dois primeiros anos, antes do desastre, qual balanço o senhor faz da sua gestão?
Avimar: Não tivemos um balanço positivo porque o governo do Estado não nos fez os repasses, como não fez para todos os municípios. Então, passamos por muito aperto financeiro. Porém, conseguimos fazer duas grandes obras: o asfaltamento do Centro até Conceição de Itaguá e do Centro até Alberto Flores.

FVP: Quais obras ou projetos devem ser executados até o final do mandato?
Avimar: Vamos investir R$ 30 milhões em obras. Estão previstos: conclusão do hospital, dos quais R$ 11 milhões para esta obra eu consegui com o governo Federal. Queremos fazer uma ponte alternativa para os caminhões de minério, pois, dessa forma, eles não precisariam ir ao Centro da cidade, desafogando o trânsito na região. Vamos recapear o Centro, além de asfaltar a estrada até a comunidade de Marinhos e, também, de Piedade do Paraopeba a Palhanos. Traremos o Distrito Industrial e cinco empresas já estão encaminhadas para se instalarem no local. A princípio, elas devem gerar em torno de 550 empregos. A partir de agora, Brumadinho vai ser um canteiro de obras. Para tudo isso teremos algumas verbas de contrapartidas de empresas.

FVP: Quais são os seus planos políticos para o futuro?
Avimar: Ainda não sei se vou me candidatar. Só serei se não tivermos uma pessoa dentro do nosso grupo que tenha possibilidade de ganhar a eleição. Se tiver, eu não quero ser candidato mais.

Além do prefeito de Brumadinho, nossa equipe também entrevistou os prefeitos de Betim, Igarapé e São Joaquim de Bicas. Confira:

Vittorio Medioli anuncia novo pacote de obras em Betim

Guto Rezende (DEM), prefeito de São Joaquim de Bicas

Entrevista: Nem (MDB), prefeito de Igarapé

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