Brumadinho: Um ano depois do rompimento da barragem, Paraopeba segue com água imprópria para consumo

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O estudo ocorreu no período de 10 dias em janeiro deste ano, nas bacias dos rios Paraopeba e Alto São Francisco. Foto: Diego Baravelli/ Divulgação Wikipedia - Janeiro/2019.

Os dados são da Fundação SOS Mata Atlântica, que analisou amostras em 23 pontos localizados em 21 cidades que fazem parte da bacia do rio

No dia 25 de janeiro de 2019, algumas horas depois da notícia do rompimento da barragem B1 do Córrego do Feijão, em Brumadinho, não ser mais novidade, quando algumas mortes já tinham sido confirmadas e resgates eram transmitidos ao vivo na TV, uma das preocupações que surgia a seguir, era sobre a probabilidade dos rejeitos de minério desaguarem no Rio Paraopeba. Suposição que foi confirmada no mesmo dia pelas autoridades. Um ano depois, segundo o relatório da Fundação SOS Mata Atlântica (SOSMA), organização não governamental (ONG), a água do Rio Paraopeba está imprópria e sem condições de uso. A SOSMA está monitorando as condições do Rio Paraopeba, desde o dia seguinte à tragédia, a ONG foi criada em 1986, com o objetivo de atuar em defesa do meio ambiente. 

O estudo ocorreu no período de 10 dias em janeiro deste ano, nas bacias dos rios Paraopeba e Alto São Francisco. No dia 23 (quinta-feira), a fundação disponibilizou o relatório completo (Clique aqui). O objetivo do material foi analisar a qualidade da água em 356 km do rio afetado pelo crime ambiental da mineradora Vale S/A, passando por em 21 cidades, desde Brumadinho até Felixlândia, analisando 23 pontos.

Das 48 cidades mineiras cobertas pela bacia do Rio Paraopeba, 35 tem sede na bacia. Entre elas, Betim, Brumadinho, Juatuba, São Joaquim de Bicas, Sarzedo, Mário Campos e Igarapé. A extensão do rio é de 510 km e sua bacia cobre 13 643 km². A nascente está localizada em Cristiano Otoni, mesorregião metropolitana de Belo Horizonte, e tem foz na represa de Três Marias, no município de Felixlândia, na região central de Minas Gerais. Os principais rios da bacia são o Paraopeba, o Águas Claras, o Macaúbas, o Betim, o Camapuã e o Manso.

Conforme os dados do relatório, de acordo com os padrões da legislação, não há possibilidades de que a água do Rio Paraopeba seja utilizada. Exceto em alguns trechos no baixo Paraopeba e no início do lado de Três Marias. Nesses locais há corredeiras e um volume de água maior auxiliadas por afluentes de melhor qualidade. Sendo assim, o rio apresenta condições de vida aquática.

Entretanto, em 11 pontos de coleta os rejeitos e contaminantes existentes na água não permitem sequer a presença de vida aquática. Dos 23 pontos analisados nenhum apresentou qualidade boa ou ótima. Os dados indicam ainda que água não pode ser utilizada em todo percurso monitorado. Sendo que em nove pontos, os índices conquistados são péssimos, em 11 ruins e apenas em um foi regular.

Em dois pontos de coleta não houve possibilidade de concluir a análise. Todos os pontos apresentam padrões em desconformidade com a legislação. Em 2019, foram 22 pontos analisados, 10 apresentaram resultado ruim e 12 péssimo.

Fonte: Fundação SOS Mata Atlântica.

Metais Pesados

O resultado da expedição ainda revelou que foram encontrados metais pesados na água, como ferro, manganês e cobre em níveis muito acima dos limites máximos fixados na legislação. Nas amostras também havia outros metais, como o cromo e sulfeto.

Se tratando do cobre, em 2020, foi encontrado em concentrações 44 superiores, na média, ao máximo permitido pela legislação, alcançando no ponto mais elevado, por exemplo, 0,45 mg/l. Segundo a norma legal vigente – Resolução Conama 357, a concentração máxima de cobre na água para rios como o Paraopeba (classe 2) é de 0,009 mg/L.

Em 2019, o cobre encontrado na água chegou a mais de 4 mg/L, o manganês chegou a até 3 mg/L em alguns locais e o ferro acima de 6 mg/L. O consumo de quantidades relativamente pequenas de cobre livre pode provocar náuseas e vômitos.

Para a professora e coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental do Projeto Índice de Poluentes Hídricos (IPH), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Marta Marcondes, esses dados de metais pesados e microrganismos “significam a preocupante diminuição dos organismos da microbiota do rio. Isso impacta na capacidade do Paraopeba em se recuperar. Infelizmente, as bactérias encontradas até o momento são causadoras de doenças e não aquelas que tem capacidade de degradar matéria orgânica”, afirma a especialista.

O resultado da expedição ainda revelou que foram encontrados metais pesados na água, como ferro, manganês e cobre em níveis muito acima dos limites máximos fixados na legislação. Foto: Adenilson Barroso.

Turbidez

A turbidez em alto nível altera drasticamente a cor da água impedindo a passagem de luz e a fotossíntese, isso resulta na morte da vida aquática no rio. Em 2019, ela chegou a 96 vezes acima do valor máximo permitido pela legislação ambiental nos piores trechos do Paraopeba.

Neste ano, o rio demonstrou enorme capacidade de recuperação, por meio de redução deste indicador, porém as concentrações ao longo de todo trecho seguem em desconformidade, variando entre 5 e 13 vezes acima do limite máximo definido pelas leis.

Os valores mais altos de turbidez registrados neste período de análises foram de 1.380 NTU (sigla em inglês para a unidade matemática Nefelométrica de Turbidez), ou seja, 13 vezes mais que o máximo permitido, no ponto de coleta no município de Paraopeba. O segundo pior ponto alcançou 1.240 NTU e foi localizado entre os municípios de Pompéu e Curvelo.

Outro levantamento promovido pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), em dezembro de 2019, constatou que foi verificado que os valores de turbidez estiveram acima do limite da legislação, até 6,8 vezes, nos trechos 1 a 4 entre os municípios de Brumadinho e Pompéu.

No trecho mais próximo à região de Brumadinho os resultados estiveram entre 234 e 675 NTU. Já no trecho a jusante da termelétrica de Igarapé até próximo a entrada no Rio Paraopeba na represa de Três Marias (estações: BPE3, BP082, BP083, BP077, BP078, BP087 e BP099), os valores estiveram entre 156 e 494 NTU.

Comunidade

O monitor do projeto Observando os Rios da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcelo Naufal, reforça a falta de informação que os moradores convivem e que é preciso que a Vale, além de trabalhar em favor ao meio-ambiente, não deixa de auxiliar na estrutura cultural dos cidadãos daquele local. “Além do redesenho da paisagem a empresa precisa avançar na restauração ambiental e florestal, mas, principalmente olhar para as questões culturais, sociais e econômicas. A relação das pessoas com o seu lugar de origem e especialmente com o rio não estão sendo considerados”, explica Marcelo.

Vale

Em nota divulgada no dia 14 de janeiro, em seu site, a Vale informa que também está monitorando a qualidade da água em 48 pontos e diz que tomará todas as medidas cabíveis para garantir o abastecimento humano e para as atividades agropecuárias. De acordo com a mineradora, produtores rurais de nove municípios estão recebendo água para consumo humano, dessedentação animal e irrigação.

Até a última terça-feira (12), teriam sido disponibilizados cerca de 5,1 milhões de litros de água. “O atendimento é voltado para as cidades de Brumadinho, Florestal, Mario Campos, São Joaquim de Bicas, Betim, Igarapé, São José da Varginha, Pará de Minas e Esmeraldas”, diz o comunicado da Vale.

Mata Atlântica

Outro levantamento realizado pela Mata Atlântica diz respeito a abrangência da devastação florestal. A entidade aponta que houve perda 112 hectares de mata nativa, das quais 55 hectares eram áreas bem preservadas. Informa ainda que, antes do rompimento da barragem, Brumadinho tinha 15,4 mil hectares remanescentes de Mata Atlântica. Essa área representa 24% do que havia originalmente no município, de acordo com o Atlas da Mata Atlântica, publicado pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Um mapeamento preliminar divulgado há duas semanas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apresenta números similares. De acordo com o órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, foram devastados 133,27 hectares de vegetação nativa de Mata Atlântica e 70,65 hectares de áreas de proteção permanente ao longo de cursos d’água. O cálculo foi feito a partir de imagens de satélite. (Fonte: Agência Brasil)