Fiscalização da Guarda Municipal de Betim mira nas linhas cortantes

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Comandante da Guarda Municipal, Anderson Reis, mostra parte das linhas apreendidas durantes fiscalizações. Foto: Sara Lira.

Debate sobre o uso do cerol ou linha chilena é reacendido após acidente com adolescente que teve perna amputada

Os perigos de usar linhas cortantes para soltar pipas ficaram ainda mais latentes após o acidente com o estudante Gabriel Lucas do Nascimento, de 15 anos, no dia 20 de julho. Ele perdeu parte da perna esquerda depois de ser atingido por uma linha chilena na altura dos joelhos. O adolescente chegou a passar por duas cirurgias para tentar salvar o membro, mas, como a equipe médica viu que seria impossível, a amputação teve de ser realizada no dia 24 de julho.

Para conscientizar a população sobre o que essas linhas podem causar, a Guarda Municipal de Betim tem feito fiscalizações em várias regiões da cidade para apreender carretéis com linhas cortantes. O trabalho começou no dia 1º de julho, antes do acidente com o adolescente, e deve ir até o final de agosto. “É um trabalho que fazemos nessa época há três anos”, destacou o comandante da corporação, Anderson Reis.

Segundo ele, só no mês de julho foram apreendidos 140 kits com linha chilena ou cerol. Além disso, a Guarda tem realizado blitze com distribuição de materiais educativos e instalação gratuita de antenas corta-pipa em motocicletas, com a parceria de uma loja especializada. “Precisamos conscientizar a população de que essa linha tem tirado vidas, cortado sonhos e causado danos irreparáveis”, afirmou Reis.

Cerol: mistura de pó de vidro moído com cola passada na linha para torná-la cortante.
Linha chilena: feita industrialmente com pó de quartzo misturado ao óxido de alumínio. Tem poder de corte três vezes maior do que o cerol.

A Lei Municipal nº 6.252, de 2017, proíbe a utilização de linhas cortantes “produzidas por qualquer tipo de produto” nos espaços públicos e privados de Betim. A proibição estende-se também para momentos de recreação, campeonatos ou lazer.

Acidente grave

Gabriel foi um dos oito pacientes atendidos na rede pública de Betim entre junho e julho, vítima de linha chilena ou cerol. No Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, referência em atendimento de urgência, foram atendidos 23 pacientes do tipo em 2019, até o dia 28 de julho.

O período de férias é quando há a maior ocorrência de acidentes do tipo. De acordo com o soldado Guilherme Baliza, do Corpo de Bombeiros, o principal perigo é quando essas linhas pegam vasos importantes do corpo, causando hemorragia intensa. Isso costuma acontecer principalmente com motociclistas ou ciclistas, mas podem ocorrer com qualquer outra pessoa. “Dependendo do tipo de corte, a pessoa morre por choque hemorrágico devido a perda excessiva de sangue”, explicou.

Segundo o militar, os primeiros minutos podem ser definitivos para salvar a vida de uma vítima de cerol ou linha chilena. Por isso, ele orienta que o local do corte seja pressionado para comprimir o sangue e o socorro deve ser acionado imediatamente, seja no 193, pelo Corpo de Bombeiros, ou pelo 192, no Samu. “A prevenção é a melhor forma. As pessoas precisam se conscientizar que o cerol e a linha chilena são proibidos e perigosos”, pontuou.

Esperança

Gabriel Lucas foi liberado do hospital no dia 28 de julho, após nove dias de internação. Demonstrando força de vontade, o garoto afirmou ter muita gratidão por todo o suporte e apoio que vem recebendo nos últimos dias. “Agradeço a todos que me apoiaram. Agora é um caminho novo, mas vou fazer a reabilitação direitinho para, em breve, voltar a jogar futebol”, disse.

Gabriel Lucas chegou no hospital em estado crítico por ter perdido muito sangue. Amputação ocorreu no dia 24 de julho e alta foi no dia 28. Foto: Ronaldo Silveira.

Aliviada pelo filho ter recebido alta a mãe de Gabriel, Regina Nascimento, também agradeceu toda a assistência ao filho, desde atenção da equipe hospitalar, até as doações das próteses. “Agora vamos continuar ao lado dele. Sinto-me como se estivesse saindo da maternidade de novo. Vou cuidar da mesma forma e reaprender nessa nova fase”, afirmou.

Já o pai, Amilton do Nascimento, considera o filho como um milagre. Otimista, ele afirmou que o filho vai conseguir superar todas as dificuldades. “O que vai determinar não é a perna, mas o coração. Se ele tiver foco e fé, vai dar tudo certo. Ele é novo, vai recuperar rápido e alcançar os objetivos. Vai ser jogador, correr, nadar, vai se casar, ter filhos… Vai dar muito orgulho para a nação brasileira”, salientou.

Denuncie: Caso veja alguém soltando pipa com cerol ou linha chilena, ou vendendo esses materiais, denuncie à Guarda Municipal pelos telefones 3531-1276 ou 153.